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  • Foto do escritorMarysette Pacheco

FERNANDO COSTA

Atualizado: 22 de out. de 2020

Revista Eletrônica de Arte Piauiense

Editorial


30 anos da morte de Fernando Costa, a Revista de Arte Piauiense APPLAUSUS nº 02 homenageia o artista teresinense pela figura que ele foi, pelo seu trabalho e pelo que ele representou e representa, para as artes piauienses.

Fernando foi um inovador na arte do Estado, era um pintor que se realizava através de mitos e fantasmas mecânicos, das vozes misteriosas da floresta, dos seus duendes, dos homens que o cercavam, da natureza que o envolvia, quando ele colocava o seu ouvido no solo para ouvir o cantar da natureza.

De apurada técnica de expressão e inteligência pictórica, o artista não fez concessões às exigências estéticas impostas pelo mercado de artes. Ele criou o seu estilo, que é só dele, com sua técnica e imagem inconfundíveis.

Feiticeiro, bruxo, mago, demiurgo, visionário, demônio, santo, um mágico sem truques, que fazia sua arte que encantava, com muita magia. Era assim o artista Fernando Costa, teresinense, do bairro Primavera, em Teresina-Pi.

Sua técnica de expressão plástica e inteligência pictórica, são os seres humanos e animais destituídos de pele, destacando as poderosas contorções das fibras musculares dos corpos.

Além dessa singularidade, os trabalhos do artista são, na realidade, uma tentativa de dissecar a alma humana, demasiadamente perdida e esquecida em um mundo que se afunda cada vez mais quando valoriza o material

Que esta revista ajude a divulgar o trabalho de Fernando Costa para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhece-lo e também a sua obra e para aqueles que estão privados de apreciar o seu acervo artístico, visto que a maioria de suas obras estão em poder de seus familiares e de particulares. As instituições públicas ligadas à cultura, como a Casa da Cultura e o Museu do Piauí, possuem trabalhos do artista, em contribuições tímidas.


A arte de Fernando Costa

Coloquei o meu ouvido no solo para ouvir o cantar da natureza

Fernando Costa



O ARTISTA

Fernando Antonio da Silva Costa ou Fernando Costa, como era conhecido, era desenhista, pintor, gravador e ilustrador. Nasceu em Teresina em maio de 1961, em uma família de seis irmãos onde, entre os homens, era o mais novo. Oriundo de uma família de classe popular, residiu no bairro Primavera, em Teresina, desde os quatro anos de idade e sempre demonstrou desenvoltura para o desenho. Quando criança vivia a riscar calçadas em cacos de telha e pedaços de carvão.1

Habilidoso no futebol, exímio na natação, gostava de gatos, doce de leite e cuscuz de arroz. Autodidata, estudou bico de pena com Marcos Cremonese e gravura com Antônio Thirso.


Suas atividades profissionais são iniciadas, como desenhista, durante seus estudos no Colégio Andreas. Logo depois começa a trabalhar na gráfica do Andreas, fazendo ilustrações de apostilas do colégio. Nesta época, trabalha, também, com o professor Cineas Santos, que, através de uma parceria, montam uma gráfica, juntando-se também a Albert Piauí.


O artista encantou o mundo com seus traços e cores. Para quem não o conheceu pessoalmente, contemplar suas telas é imaginar um artista com um turbilhão de ideias que expôs na pintura a sua inquietação. Paulo Moura2, fez um breve relato onde lembra do temperamento e do jeito simples do artista. "Quem conhece somente os desenhos e as pinturas de Fernando Costa, pode ser levado a crer que se tratava de um artista angustiado, de gestos nervosos e falar compulsivo. Fernando era, no trato com as pessoas, a antítese das imagens que produzia".


Para o professor Cineas Santos3, “Fernando era a pessoa mais gentil e suave que conheci. Mesmo jogando futebol - zagueiro central - era incapaz de uma jogada violenta ou desleal. Falava baixo, adorava música de boa qualidade, mulher e cerveja gelada”, destacando mais qualidades que o tornavam um ser especial, que era a sua dignidade pessoal. “O seu jeito de ser lembrava o Paulinho da Viola", acrescenta.


Salgado Maranhão4 afirmava que 'Fernando não caminha; ele levita'


Para Kleber Santos 5 o artista plástico tinha consciência do seu talento e, por isso, não fez concessões às exigências estéticas impostas pelo mercado de artes. Fernando foi um inovador, foi receptivo às experiências das vanguardas. Sempre atento, exerceu uma severa autocrítica e sempre esteve alerta para repudiar os elogios de conveniências. Manteve-se distante dos círculos das badalações e da mídia.


Desenhava compulsivamente para aprimorar a sua técnica. Lia tudo que lhe caía às mãos sobre artes plásticas e mantinha-se sempre informado a respeito dos valores estéticos reais e dos modismos de circunstâncias, comenta Kleber Santos.


Neste período, já nos finais da década de 1970, sua produção é intensa, com a comercialização dos seus trabalhos, no entanto, o pouco que ganha é investido na aquisição de materiais de trabalho para novas produções. Nesta fase, entrega-se, de corpo e alma, à pintura e à gravura.



Tinha dificuldades de comercializar seu trabalho tanto por uma natural inaptidão em "acertar preços" quanto pelo forte impacto de sua arte. O valor cultural de sua obra quase sempre não era acompanhado pela sua venda, presumindo-se que isso tenha causado ao artista interrogações sobre a verdadeira importância de sua obra.


Convidado para ocupar cargos na Prefeitura Municipal de Teresina, o artista plástico recusou, não se deixando deslumbrar pelas facilidades advindas da ocupação de um cargo público. Havia muita ânsia de produção e desejo de liberdade e talvez não se vislumbrasse apegado a rotinas e cumprimentos burocráticos.


Para o professor Cineas Santos6, sua pintura não tinha relação com a sua personalidade. Disse que certa vez escreveu um perfil do Fernando e afirmava que o mantivéssemos distante de carvão, giz, pincel, tinta, pois, ao menor contato com qualquer desses elementos, descia sobre ele o espírito de todos os grandes mestres da criação e que tudo podia acontecer.


Quando em 1982, Fernando Costa expôs pela primeira vez em São Paulo, o historiador piauiense Clóvis Moura comentou que Fernando realizava as visões do seu universo através do óleo, xilogravura e de outras formas de expressão plástica de forma quase que explosiva, como se no seu centro uma bomba estourasse e as figuras se fragmentassem em consequência da explosão.


Segundo o poeta e historiador piauiense Paulo Machado7, após mais de vinte anos da morte de Fernando Costa o acervo do artista ainda guarda uma análise da crítica especializada. Para quem não conheceu Fernando pessoalmente, contemplar suas telas é imaginar um artista com um turbilhão de ideias que expôs na pintura a sua inquietação. Para Cineas Santos, a pintura de Fernando é “visceral, às vezes assombrosamente bela”8





Clóvis Moura9 comenta que Fernando Costa era um pintor que se realizava através de mitos e fantasmas mecânicos, das vozes misteriosas da floresta, dos seus duendes, da natureza que o envolvia, mas, especialmente, dos homens que o cercavam. Diz, ainda, que Fernando chegava ao humanismo pelas vozes trágicas de sua concepção plástica e que este humanismo, que se filtra nos interstícios da tragédia cósmica captada, de maneira ordenada, é que conduz este artista para desconcertantes soluções. “Há, em cada quadro seu, uma tragédia, volições de gênese dos seres e do universo, tendo, sempre, no seu centro, a dimensão do Homem eterno. Dissemos antes: jovem, mas experiente. Experiência esta que se traduz na sua trajetória de aprendizado e realizações”, concluiu Clóvis Moura.


Audacioso, Fernando Costa contribuiu para deflagrar o processo de renovação nas artes plásticas piauienses. Com sua produção expressiva, ganhou importância e notoriedade, e mesmo após sua morte, continua exercendo influências sobre uma geração posterior a ele. O certo é que o artista tinha um talento excepcional e mesmo não tendo ciência da quantidade de artistas que ele influenciou, o professor Cineas Santos 9 , garante que ninguém que conviveu com Fernando Costa ficou indiferente ao trabalho dele. “Era um artista que não cabia em si, por isso transbordou”, enfatiza. ‘

Participou de várias exposições coletivas em vários centros culturais brasileiros. Ganhava prêmios nas categorias de desenho, gravura e pintura.


CARACTERÍSTICAS DE SUAS OBRAS

Quem se depara com qualquer obra do teresinense Fernando Costa logo se vê diante de algo no mínimo diferente. Além dessa singularidade, os trabalhos do artista são, na realidade, uma tentativa de dissecar a alma humana, demasiadamente perdida e esquecida em um mundo que se afunda cada vez mais quando valoriza o material.10


Uma das características mais ressaltantes da obra de Fernando Costa, realizada com apurada técnica de expressão e inteligência pictórica, são os seres humanos e animais destituídos de pele (como se esta fora totalmente esfolada), destacando as poderosas contorções das fibras musculares dos corpos, num ambiente sempre agônico e mutante (O espetacular painel "Apocalipse" é um genial exemplo). Esse fator advinha das constantes leituras de livros de biologia e visualização de atlas do corpo humano estudados, entre tantos outros assuntos, com afinco.11


Comenta Machado12 que Fernando Costa criou vários ciclos estéticos a partir de experiências cromáticas e da recriação de formas. Desenvolveu, com habilidade, uma nova concepção de espaço.


A obra de Fernando Costa, assim como algumas grandes obras, sofre essa inadaptação temporal quanto à interpretação e à recepção, e a própria obra em si parece movida, entre tantos outros elementos originais expressos com imensa violência interior, por essa recusa de fazer-se facilmente “digerida” por quaisquer gostos medianos e em voga na sociedade, diz Kleber Santos. 13


Já Clóvis Moura14, emite sua opinião dizendo que a obra de Fernando Costa é desconcertante na medida em que ela foge, de um lado, ao convencional, e, de outro, às diversas escolas e tendências de vanguarda atuais. Realiza as visões do seu universo através do óleo, xilogravura e de outras formas de expressão plástica de forma quase que explosiva, como se no seu centro uma bomba estourasse e as figuras se fragmentassem em consequência da explosão.


Fernando Costa produziu uma série de óleos sobre tela, que denominou de ‘Ciclo dos Generais’, quando, em período histórico recente, os cientistas políticos analisavam “o processo de transição democrática”. As obras desse ciclo registram as dores clandestinas das vítimas dos tempos blindados, informou Machado .15


Ao falar sobre a obra de Fernando Costa, Paulo Moura16 comenta: “o espaço de sua obra era ocupado por figuras descarnadas, em gestos desesperados; ossos, músculos,

vísceras, horror... tudo à mostra em duas dimensões, desprezando perspectivas e volumes, numa composição aparentemente caótica, mas de planejada ordem subjacente e meticuloso estudo de formas, cores e disposição espacial. Uma arte que ainda nos inquieta e nos remete a outras dimensões sem dar nenhuma pista, nenhuma resposta pronta. Pura arte, enfim, esperando ser decifrada individualmente”.


Este piauiense, tendo de conviver com o cotidiano da tragédia anônima, pintor de grande fôlego, gravurista de alto nível técnico e dono de uma sensibilidade quase febril, tinha de optar entre fazer uma pintura descarnada e naturalista ou uma pintura capaz de refletir essa realidade, mas avançando em direção a uma visão supra-real do mundo, transcendendo-a plasticamente. 17


E este jovem, mas experiente artista fez, jogando com elementos dessa realidade, caminhando sempre em direção ao trágico. O seu mundo plástico é um Apocalipse ou um Juízo Final ordenados esteticamente, embutidos e submetidos a uma visão de esperança, mesmo através de temas e símbolos que, à primeira vista, parecem negá-la. Um artista que, na sua solidão, conseguiu, moço ainda, expressar um universo pessoal por uma pintura em que as cores muitas vezes se chocam e outras se harmonizam, funcionam como dínamos plásticos que sugerem o movimento que a pintura não possui. 18


Sua ida a São Paulo, na época com 23 anos, acontece após o casamento e com o objetivo de acompanhar a esposa em seus estudos de mestrado, assim como para criar a oportunidade de divulgar seu trabalho em um grande centro cultural. Vale ressaltar que pouco antes tinha feito exposições bem-sucedidas no eixo Rio/São Paulo, o que também o motivou a encarar a mudança de endereço. O casamento dura pouco e, após a separação, sua esposa foi morar em Brasília e Fernando fica em São Paulo.


É um período obscuro na sua vida, cujas informações exatas são difíceis de recolher dada a omissão de informações sobre seu próprio estado psicológico à família (talvez apenas poupando seus familiares de maiores preocupações).


Clóvis Moura19 comenta a respeito de sua permanência em São Paulo: “No momento em que ele se apresenta em São Paulo pela primeira vez, certamente chamará a atenção não só da crítica, mas também, e especialmente, de todos aqueles que viram e analisaram suas telas. Fernando S. Costa: um nome a ser anotado entre os mais substantivos criadores do Brasil. ”


A mudança em sua obra de arte e no seu modo de ser, após sua ida a São Paulo são comentados por Paulo Moura20: Fernando Costa foi morar em São Paulo, com a ajuda do Professor Cineas Santos e o apoio logístico do escritor piauiense Clóvis Moura, que morava em São Paulo há algum tempo. Quando voltou, estava mudado e sua arte também mudou. Rompeu com o figurativismo e abraçou o abstracionismo, compondo suas obras em fragmentos de curvas, formas e cores pairando, leves, num arranjo espacial minimalista. O artista plástico, que falava manso, baixinho e sem pressa, agora era reticente e contemplativo. Quase silencioso, imaginando sabe-se lá o quê...


Volta a Teresina trazendo alguns de seus trabalhos e deixando outros. Fernando Costa visivelmente abalado e perturbado, sofre com uma poderosa depressão, mas sem distanciar-se da pintura e de seus outros trabalhos com artes plásticas. A arte o acompanha sempre.21


Fernando Costa tem uma obra artística que impressiona pela qualidade. Ainda assim é pouco conhecido mesmo entre os piauienses. Instituições públicas ligadas à cultura, a Casa da Cultura e o Museu do Piauí, possuem trabalhos de Fernando Costa, em contribuições tímidas.


Os trabalhos de Fernando Costa estão concentrados, quase que em sua maioria, na casa de sua família, no bairro Primavera na cidade de Teresina (onde também residiu quando vivo), mas há vários outros trabalhos seus dispersos com outras pessoas, tais como Cineas Santos (Na Oficina da Palavra há dois quadros expostos), e Alcides Filho (que possui uma série de trabalhos sobre a temática da natureza).


Espera-se ainda que à sua obra seja destinado um espaço público de bom nível e de visitação contínua, dada a originalidade e o valor cultural que, indiscutivelmente, ela possui.


Duas exposições, pos mortem, foram realizadas em Teresina. Uma em agosto de 2009, para celebrar os 15 anos da Casa da Cultura22 e a outra, no Teresina Shopping, durante o Festival de Artes de Março de 2014. A primeira, intitulada “A Permanência de Fernando Costa”, era composta de 20 telas do artista piauiense. “Essa é a primeira grande exposição de Fernando Costa, artista piauiense de grande expressão e importância por deflagrar um processo de renovação nas artes plásticas piauienses. Há toda uma geração de artistas que ainda hoje sofre influência de Fernando Costa”, afirmou Cineas Santos, apreciador do artista.


A segunda, durante o Festival de Artes de Março de 2014 a exposição foi baseada no vasto acervo dele, que foi cedido por seus familiares, por Cinéas Santos, Alcides Filho, Margarete Coelho e Museu do Piauí para a mostra. O público pode apreciar o trabalho do artista exposto próximo a entrada 4 do Teresina Shopping.


Foram 60 peças, entre telas, pinturas, desenhos, pintura em acrílico, nos mais diversos suportes. Segundo Paulo Vasconcelos, organizador da exposição, o destaque da exposição de Fernando Costa são dois autorretratos: um feito em gravura e o outro com a técnica pintura a óleo sobre tela. Dois painéis que foram expostos na Bienal de São Paulo também foram expostos. Vasconcelos comenta que “é uma exposição bastante diversificada. Com certeza é a maior exposição com obras de Fernando Costa realizada no Piauí. O trabalho de Fernando Costa é um trabalho muito forte, impactante. Ele trabalha com figuras, mas também com abstrato, além da natureza e trabalhos publicitários. O mais forte são os abstratos”.


Para estas exposições, a família do artista foi mobilizada para, mais de duas décadas após sua morte, reunir obras, tanto do acervo da família, como de colecionadores, que sintetizam o talento de Fernando Costa. “Apesar de passado tanto tempo, essa exposição visa reavivar o nome e a arte de Fernando Costa em Teresina. Agora, com o apoio da Fundação Monsenhor Chaves, a arte de Fernando Costa ganha o reconhecimento que merece", diz Lúcia Quitéria, irmã do artista plástico.


Os escritores piauienses da Geração Pós-69 devem ao artista plástico as imagens criativas que ilustraram seus textos, em livros e cartazes, editados fora do circuito convencional.


Elmar Carvalho23 escreveu uma crônica sobre Fernando Costa, intitulada Fernando: ‘A Golpes de Estilete’, que se transcreve ipsi litteris: “Fernando era como um alquimista. Era um mago medieval, mas demasiadamente moderno – eterno. Um mágico sem truques, mas com muita magia em sua arte. Era um bruxo, um demiurgo e/ou taumaturgo. Um demiurgo, como dele disse Clóvis Moura. Demiurgo e demônio, tanto faz. Demônio e santo, tudo junto e algo mais.


Aquele algo mais que o fazia erguer do caos primordial do nada/ser suas belas gravuras a golpes de estilete. Traçava em longos e lestos e lentos gestos de prestidigitador o desenho na borracha. Depois, com o estilete, diligentemente, a desbastava, até arrancar a forma perfeita de sua linogravura.


Mas o seu arrancar era feito suavemente, quase como se não tocasse a matéria, tal era sua agilidade. Acaso não tivesse esse dom encantatório daqueles que sabem seu ofício como um deus, usaria fórceps para extrair sua arte dos umbrais do caos das formas informes.


Fernando Costa era uma pessoa delicada. Talvez por isso não teve a dureza necessária para enfrentar as vicissitudes do simples existir, do simples estar no mundo. E as crises existenciais se abateram como golpes de estiletes sobre sua alma sensível e gentil. E as angústias repercutiram em sua arte, principalmente em sua pintura, que por vezes tomava formas aparentemente desordenadas e sombrias. Ao criar como ninguém, ousou desafiar os deuses, e os deuses enciumados fizeram com que o Grifo da destruição se rebelasse contra o artista, na metafórica e literalmente lapidar expressão de Ivan Junqueira: ‘Se o homem cria, ele o espedaça e pisa, triunfante, entre os escombros da agonia. ’


Certa vez, Fernando, diante de um quadro do pintor e pirógrafo Sica, como se estivesse em transe, ou como se visse além das aparências óbvias, redundantes e vulgares, exclamou com viva admiração e júbilo pelo trabalho alheio, apanágio dos bons e dos não invejosos:

Mas que azul fundamental!...


E um dia, em pleno carnaval, sem nenhuma explicação aparente, como as grandes obras de arte, Fernando esvaiu-se em sangue, em vermelho, num ritual de morte digno de Mishima, ou das mutilações de Van Gogh, através de golpes de estilete contra si mesmo desfechados, arrancando à força, em seus últimos gestos, mais uma vez ousando contra a fúria dos deuses, o seu mais profundo vermelho.


O seu vermelho fundamental”.


ANÁLISE DE SUA OBRA

O artista francês, radicado no Brasil, Gilbert Chaudanne24 analisa minunciosamente um quadro específico do artista sob a ótica de que "os desejos nos enganam", a vida humana é trágica, um eterno paraíso-inferno. A obra intitulada Apocalipse, de 1982, é um painel com dimensões 2,20m x 1,50m e o texto foi publicado originalmente na Revista Presença, nº 5, set/nov. 1982, Ano III, p.14-15.


O DEUS BRASILEIRO DE FERNANDO COSTA



Cada quadro de Fernando Costa é um grande livro – o livro da criação do mundo – porque a inspiração do Fernando está diretamente ligada às respirações elementares da carne, presença obsessiva do corpo humano e animal e dum corpo sem pele, deixando, assim, ao ar livre à musculatura como se esta fosse o desenho do destino humano debaixo da pele hipócrita.


Fernando Costa faz voltar o homem às origens. E se já era um processo clássico de desnudar o homem dos farrapos da civilização (o nu como homenagem à beleza humana), Fernando vai mais longe, tirando não somente a roupa, mas também a pele, como se essa ainda fosse a última roupa, duma beleza puramente plástica, formal, pois falsa e que assim Fernando foi obrigado a rasgar esta pele para mergulhar mais profundo nos corpos e nos seus lagos de sangue.


E o que foi que Fernando Costa encontrou nesta viagem além da pele humana: anjos, cristalizações, adorações sangrentas, ritmos, gritos vermelhos, cochichos, desejos?

Fernando encontrou apenas o deus segurando suas máscaras animalescas para dizer sua dupla identidade: Abraxas, deus do bem e do mal intimamente casados em bodas sangrentas e assim não é mais possível perceber o que está do lado do bem ou do lado do mal. Não se trata aqui daquela bipartição do desejo sangrento com a lucidez cristalina, mas trata-se de uma força só vermelha, disfarçada, travestida, que brinca violentamente consigo mesma, com seus filhotes humanos e animais jogando uns contra os outros, e também fazendo-os copular, bicho com homem, homem com bicho numa luta amorosa e safada, isto para mostrar a presença absoluta da duplicidade divina dentro das criaturas.


Estamos aqui longe de uma visão cristã do mundo, com sua luta de anjos bons e demônios. Aqui estamos num reino que não aceitou a bipartição em bem e mal. Isto é, um mundo de antes do pecado, mas também não se trata do éden, do paraíso Adão e Eva antes da queda, porque aqui não é um jardim, mas uma selva (também chamada lei do cão, do cão parido pelo deus duplo) segundo os princípios do prazer da carne e da morte da carne. Orgia sexual do homem copulando com os bichos, e, ao mesmo tempo, procurando matá-los; mostrando aqui também duplicidade do desejo, do prazer que pode aparecer como doçura de viver, mas que no fundo traz com ele o cheiro metálico da morte de faca-serrote e espada.


Isto é o crime, e que assim nesse paraíso-inferno, estamos vendo o deus duplo (que está parindo perpetuamente do diabo, do bicho), trabalhando nas criaturas, brincando sadicamente de vida e morte – orgia de corpos esfolados de bichos contorcidos: beleza sangrenta e safada do desejo. Mundo pagão que fica reforçado pela presença dos índios soprando nas flautas gigantes dos rituais tupi-guaranis ou vestidos de peles de animais, porque o índio, ao contrário do branco cristalizado, não perdeu aquele sentido do deus duplo, gostoso e safado ao mesmo tempo. E é de notar que a indianização da força divina se reflete na representação do próprio deus que não deixa de lembrar um enorme cacique. E é de notar também que Fernando, desta maneira, abrasileirou o Abraxas grego, exacerbando ainda mais sua duplicidade até na própria sexualidade porque, se o deus consegue parir, ele é também fêmea, e sendo cacique já, ele é andrógino.


E mais: na parte inferior do painel, notamos a presença duma mesa, símbolo dos primeiros passos da civilização ocidental, e sobre esta mesa os instrumentos de tortura desta civilização: a televisão, o liquidificador, e na frente dela (a mesa) um homem pedalando sobre uma bicicleta complicada, num mar de vísceras (matriz dos bichos, placenta do deus duplo?), assaltado por outros homens aliados dos bichos e armados de faca-serrote, mas que mesmo assim parece fazer uma oferenda ao deus, ao cacique andrógino parindo do bicho-diabo, levantando um cesto de frutas-flores do mal, mostrando-demostrando assim sua fé masoquista no deus. Este personagem parece fazer ligação entre os homens-bichos ou os bichos-homens e o deus porque ele é o único a reconhecer, a adorar conscientemente o deus orgíaco, safado e sádico, os outros personagens sendo submissos pelos canais dos seus desejos sexuais e criminais a sede do esperma e sangue do deus.


E esta cena, com aquela mesa grande, lembra justamente a Cena, mas uma cena ao avesso-satânica ou simplesmente pagã, e não é por acaso se naquela mesa encontramos alguns livros como Os Cantos de Maldoror que são verdadeiros evangelhos do mal. Mas não há nada de símbolos cristãos, e este mal não é satânico, mas simplesmente o mal do deus duplo que o carrega como uma mãe na sua barriga com todo o carinho duma mãe, porque este filho também faz parte do mundo e que finalmente o mal também merece carinho e que o deus macho e fêmea, parindo do mundo-cão, está além dessas fofocas humanas de bem e de mal porque ele só faz parir a vida-morte que uma só força bruta e alegremente imoral.


E do outro lado da mesa, há um homem de terno escuro, sem cabeça, que parece assim como um doutor no meio dos corpos esfolados, e que esse doutor pelo intermediário da sua fantasia de homem que sabe das mecânicas é como um desafio, aquele duma civilização – quer dizer – dum edifício sofisticado que iria contra a vontade nua e crua do deus-cacique-duplo porque assim o doutor com sua roupa, suas mecânicas, seus aparelhos, pode ser que conseguiria vencer o poder espermático e sangrento do deus, inventando uma magia metálica: mecânica (bicicleta) e eletricidade (televisão e liquidificador). E é por isso que o doutor de terno azul-escuro está sendo sacrificado como Prometeu porque ele quis roubar o saber, o fogo do saber ao deus, e criar assim a eletricidade: por isso que ele foi decapitado (ou pode ser que sua cabeça foi devorada pelos bichos-homens, servidores fanáticos de deus).


O que é de notar sobretudo nesta visão de Fernando Costa é que se trata aqui não apenas duma exploração das antigas mitologias indígenas e gregas, mas também de uma verdadeira criação duma nova mitologia; porque o debate que o deus está instaurando está se fazendo aqui e agora. Aqui, neste Brasil de megalópoles elétricas e de índios amazônicos e agora, quer dizer, no século XX, com seu cheiro de apocalipse, suas revoluções morais e o crepúsculo do seu cristianismo.


E o Brasil, terra sincrética por excelência, facilita o nascimento dessa nova mitologia, já esboçada por Nietzsche, Hesse, e ilustrada por Carlos Santana, Jorge Mautner e Sousândrade.


Esta mutação do mundo ocidental-cristão está se fazendo através da ressurreição dos mitos pagãos antigos, mas sendo reatualizados no mito brasileiro moderno que será a verdadeira identidade nacional.


É isto que Fernando Costa está fazendo: ele inventa ou descobre o deus brasileiro, finaliza Chaudanne.


Para coroar este trabalho, não se poderia deixar de mencionar aqui a poesia de Luiz Filho de Oliveira, intitulada Onde Humano, a qual ele fala sobre Fernando Costa: “De mim, um poema para homenagear um artista plástico, depois de bater de frente com uma sua tela, na galeria que tem seu nome (Galeria Fernando Costa), na Oficina da Palavra, em Teresina, Piauí. Pinta, poeta:


Sobre o realismo plástico artista: um homem em sua obra25

de tinta de sangue

fez-se teu nome – Fernando –

personalíssimo & transferível ao poema

pelo bendito ódio à vida

que se-gerou imagem sanguenta

de tanta pintura e quanta violência!

ah.. quadro profundo!

teus punhos teu ventre teu grito teu estilo

compunham tua mais crua obra prima & derradeira

(No Primavera; próxima, a praça que tem, sim, seu nome próprio.)”


Ao observar os quadros de Fernando Costa, deparou-se com um detalhe que chamou à atenção. Trata-se do uso frequente das linhas, em ziguezague ou linha em forma de onda, e que, em sua grande maioria, apresentam-se coloridas, tanto para trazer harmonia à composição, como para dotar o desenho de uma analogia estrutural ou ainda para ornamentar a pintura.


Em alguns quadros, Fernando usou uma série de linhas que vai de um lado ao outro várias vezes, que formam ângulos ao mudar de direção; em outro ele usou um movimento contínuo em forma de ondas.


Esse padrão geométrico é construído por uma sequência de segmentos lineares alternados quanto à direção, formando linhas quebradas com alternância de ângulos salientes e reentrantes. Constitui um ornamento que Fernando soube usar em sua pintura.


Esses traços irregulares ou em ziguezague refletem impulsividade. As pessoas vão acumulando as tensões e liberam tudo inesperadamente. Normalmente são pessoas que dão grande importância ao aspecto afetivo.


O uso de cores fortes, como o vermelho, o verde, o pink e o violeta conferem às telas um ar de explosão da alegria. Ziguezaguear, por exemplo, mostra caminhos que se perdem, com o uso de pinceladas que apontam para a importância do movimento e de um estado psicológico de inquietação existencial.


Ao observar a obra de Fernando Costa esbarra-se numa tentativa de entende-la, de encontrar algum significado, alguma solução. O melhor que se pode fazer é abstrair-se de toda e qualquer distração e colocar-se diante da obra de arte, não procurando entender a sua linguagem, o seu sentido... mas somente apreciando.


OBRAS

“... a obra de Fernando Costa me atingiu em cheio, por dentro, sem volta, de modo a não me deixar ileso ... e pelo incômodo de perceber que um gênio, num lugar devastado pelo desconhecimento de seus artistas, vive sepultado no esquecimento”. Kleber Santos


O trabalho do artista Fernando Costa não se enquadra nos padrões convencionais de beleza. Não é uma obra extremamente bela. São obras que causam um impacto sensitivo, um ar de surpresa que nos faz sair da zona de conforto, daquilo que estamos acostumados a ver e a sentir. São cenas fortes, que transbordam e atiçam nossos sentidos, fazendo-nos desviar dos padrões estipulados e/ou estabelecidos. Padrões convencionais.


A obra do Fernando causa estranhamento para muitos. É uma obra que nos faz levitar, nos tira do chão. É uma produção que apresenta uma polissemia de sentidos, que transborda, que extrapola, que sugere linhas de fuga em relação ao instituído, à norma.


“Como algumas grandes obras, a de Fernando Costa sofre de uma inadaptação temporal quanto à interpretação e à recepção, e a própria obra em si parece movida, entre tantos outros elementos originais expressos com imensa violência interior, por uma recusa de fazer-se facilmente “digerida” por quaisquer gostos medianos e em voga na sociedade” (Demétrio).


O seu trabalho guia para a permanência de um gênio, que ainda espera pelo devido reconhecimento perante a atual e as vindouras gerações.


Fernando está vivo! Sua obra jamais morrerá!




Série Abstratos






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